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Pampilhosa da Serra quer ser o novo Douro e vai plantar vinhas para combater incêndios

A plantação dos primeiros hectares de vinha já está autorizada. A encosta do Zêzere vai produzir vinhos exclusivos.
As encostas vão ser aproveitadas para plantar vinhas.

Para grandes males, grandes remédios. A Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, foi um dos concelhos drasticamente atingidos pelos incêndios de 2017. Depois disso, veio a certeza de que as coisas tinham de mudar. E estão a mudar tanto que o município já comprou mais de 100 hectares de terreno e vai plantar vinhas em socalcos da encosta do Zêzere. Quer ser o novo Douro e espera levar o nome do País e da região longe através de vinhos exclusivos e de qualidade.

O objetivo é criar áreas de descontinuidade florestal para aumentar a resiliência aos incêndios rurais e adaptar o território às alterações climáticas e a aposta é o setor vitivinícola. Mas como se juntam as duas coisas? “A encosta do Zêzere, na freguesia de Portela do Fojo/Maxio está exposta a sul, não tem falta de água, tem a exposição necessária ao sol e sempre foi muito produtiva no setor primário, com as uvas de maior calibre, a fruta a amadurecer mais cedo, por isso, tínhamos a intuição de que teria características e apetência vitícolas”, conta à New in Coimbra Rui Simão, vereador da Câmara Municipal da Pampilhosa. 

Com o apoio da Comunidade Intermunicipal Região de Coimbra, que no seu Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas dá destaque à floresta e à agricultura e os estudos de investigadores da Escola Superior Agrária de Coimbra, chegou a confirmação. “O perfil, o tipo de solo, a acidez, a hipsometria, tudo foi estudado e veio confirmar o que já intuíamos”, diz o autarca. A isso acresce “uma expectativa da evolução climática global, numa altura em que as alterações já estão a fazer os produtores refletir e muitos estão a procurar zonas mais frescas”, acrescenta. 

Com os estudos feitos e a certeza de que o terreno era o indicado, o projeto começou a dar os primeiros passos em 2019. “Este é um caminho de mil passos”, reconhece Rui Simão. “No fim da linha queremos ter boas propostas de vinho em cima da mesa, a harmonizar com a gastronomia da região e do País. Vinhos exclusivos e singulares, que iremos associar ao enoturismo, a esta relação mais intimista que temos com a natureza”, diz.

Estas vinhas com Indicação Geográfica Protegida (IGP) Beira Atlântico, sob a tutela da Comissão Vitivinícola Regional da Bairrada, ainda não foram plantadas. Em julho deste ano, o Instituto da Vinha e do Vinho deu autorização para a plantação dos primeiros 30 hectares junto à aldeia de Trinhão. Na próxima primavera vai começar a ser preparado o terreno e na de 2024 vão ser plantados os primeiros pés, mas Rui Simão, como todos os envolvidos, não tem dúvidas: hão-de dar brancos, tintos e espumantes “de grande qualidade”.

Rui Simão sublinha que a atribuição da área máxima para o ano 2022 “premeia todo o trabalho realizado pelo município, pela Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra e pela Comissão Vitivinícola Regional da Bairrada, parceiros desde o primeiro momento com contributos em várias áreas, designadamente através de estudos e pareceres que robusteceram a qualidade e o crédito do projeto”.

Aldeia do Trinhão.

As vinhas fazem parte de um projeto de transformação da paisagem nas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP), que visa uma abordagem territorial integrada para dar resposta à necessidade de ordenamento e gestão da paisagem e de aumento de área florestal gerida a uma escala que promova a resiliência aos incêndios, a valorização do capital natural e a promoção da economia rural. Para chegar até aqui, só entre janeiro e abril deste ano, o município da Pampilhosa da Serra identificou, adquiriu e emparcelou 70 hectares de terreno de mais de 150 proprietários diferentes. “Aqui temos o verdadeiro minifúndio”, sublinha José Simão. Palmilharam-se quilómetros, desbravaram-se caminhos, chamaram-se antigos resineiros, gente que conhece bem o terreno e os seus donos.

“Esta vinha ainda não existe, mas foi sonhada e está a ser concretizada”, assume o vereador que representa o “entusiasmo e o desejo coletivo de transformar a paisagem para que ela seja resiliente ao fogo, pelo seu capital ecológico, mas também fazer uma transformação social e económica”. Na Pampilhosa da Serra, o projeto âncora é este da associação à vinha, mas falamos de 4005 hectares de território e de uma operação maior que passa também pela proteção de linhas de água e produção florestal bem gerida e organizada. 

O processo tem sido gradual e assim vai ser até que a vinha comece a produzir. Afinal falamos de “uma transformação da paisagem através da vinha como há muito tempo não se vê em Portugal”, reforça Rui Simão. O município, empreendedor, assumiu o papel necessário à transformação ímpar que quer fazer, mobilizando a sociedade e os interesses públicos. 

A ideia “não é olhar para as alterações climáticas como uma inevitabilidade e de forma negativa, mas neste caso perceber o que podemos tirar de positivo destas alterações climáticas e, porque não o aproveitamento da vinha neste território”, disse Jorge Brito, secretário executivo da CIMRC, aquando da apresentação do projeto falando de “uma oportunidade”.

Aldeia da Travessa.

As semelhanças da zona com as encostas do Douro levam muitos a falar do nascimento do “Zêzere Vinhateiro” ou até do “Douro ao Centro”. Rui Simão confirma que o que se está a fazer é vinha de montanha e que a experiência e a qualidade do Douro vinhateiro têm servido de exemplo e até de inspiração.

“Um território vitivinícola é muito mais competitivo”, considera, explicando que na Pampilhosa, devido à enorme ligação à natureza existente, o processo tem sido muito natural. “Investir na terra é algo que nos é identitário e que está enraizado no nosso território”, refere. “Aquilo que vamos ser capazes de fazer aqui vai orgulhar os pampilhosenses mas também o País”, acredita.

“A nossa missão é convocar todos os que olham para este território, transformar a realidade em vez de copiá-la. Somos uma terra que pensa e que faz o seu caminho. Que o País perceba que não pode dispensar o contributo destes territórios”, sustenta.

“Em mil passos, demos 200, mas há coisas que já sabemos. Sabemos que todos os vinhos vão ser de grande qualidade, tintos, brancos e espumantes únicos e que vamos ter uma relação exclusiva com o mercado. Integrando a IGP Beira Atlântico vamos incutir nuances às castas estrela da região e fazê-las brilhar ainda mais”, conclui.

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