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na cidade

Há 70 cães a passarem despercebidos em Coimbra — estes voluntários cuidam deles

Os animais vivem em "matas periféricas à cidade" e muitas pessoas "nem se apercebem" da sua existência. Têm muitas ninhadas.
É um problema recorrente.

Numa altura em que os abandonos são constantes, é habitual estarmos atentos às bermas das auto-estradas à procura de um cão, um gato, um coelho ou qualquer outro ser a precisar de ajuda. Mas os animais de ninguém nem sempre estão à vista — há aqueles que não querem ser encontrados. Em Coimbra, o Movimento de Intervenção pelas Matilhas dedica-se a cerca de 70 deles.

“A maior parte das pessoas nem se apercebe que andam na cidade de Coimbra”, conta à PiT Sofia Magalhães, diretora do Movimento. “Vivem muito em matas periféricas à cidade e retiramos imensas ninhadas, não temos capacidade para retirar todas. Não temos meios nem é legal, sequer, fazer CED em cães”.

O programa CED (Capturar-Esterilizar-Devolver) tem sido “um sucesso” em gatos silvestres desde que foi implementado pela Animais de Rua em parceria com os municípios e os cuidadores de colónias em todo o País. Mas os cães continuam a ser deixados para trás e os voluntários da associação em Coimbra não conseguem atender todos os pedidos.

“Um dos maiores desafios que acho que é desta causa em geral é a não existência do CED em cães”, frisa a voluntária de 40 anos. “É uma das coisas para qual nos batemos. Não temos abrigo ainda porque estamos muito focados na situação dos cães de matilhas. As nossas maiores luta são não conseguir dar resposta a todos os casos e as despesas. Há sempre algo para socorrer”.

Muitos dos animais estão habituados a viver em matilhas afastadas e não são sociáveis com humanos. Sofia partilha que a equipa de intervenção raramente recolhe cães adultos, sendo as ninhadas o principal problema. Todos os filhotes que conseguem recolher, ficam em família de acolhimento temporário (FAT) até encontrarem um lar definitivo.

“A solução para esses cães não é um canil municipal. Pode ser, transitoriamente, a construção dos parques de matilhas mas estes são como os canis, se não apostarmos na esterilização, podemos fazer quantos quisermos que nunca vão ser suficientes”, lamenta. “A verdade é que não conseguimos ter mãos a medir, nem nós, nem o canil de Coimbra”.

“É um problema de todos nós, da sociedade”

O Movimento de Intervenção pelas Matilhas foi fundado em 2019 por três cuidadoras, que atualmente já não fazem parte da associação. Sofia, que conheceu o projeto em 2020, assumiu a liderança em 2022 e no ano seguinte constituiu a associação.

“Nasceu da união de três protetoras de Coimbra, que na altura estava a passar por uma situação complicada com os cães de matilhas que protegiam na rua”, recorda. “Estavam a ser capturados e não sendo sociáveis, abatidos. A lei também não era a mesma que é agora. Elas juntarem-se para dar um pouco de visibilidade a esta situação, para conseguir mais apoios”.

No mesmo ano, o Movimento criou um protocolo com o Canil Municipal de Coimbra. “Temos voluntários a trabalhar dentro do canil a socializar os animais e a divulgá-los”, explica. “Entendemos que este problema não é da associação X, da associação Y, da protetora Z ou do canil. É um problema de todos nós, da sociedade”.

A voluntária confessa que nem a trabalhar em conjunto conseguem “ter capacidade de resposta para todas as ninhadas que aparecem”. Um dos objetivos dos protetores desta causa é “mudar a legislação e implementar programas CED” nos canídeos. “Tem funcionado bem nos gatos, foi assim que se conseguiu controlar um bocadinho o descontrolo populacional que havia há cerca de uma década. Tem que se avançar para os cães também”.

Em 2022, o Movimento passou por uma situação delicada com os vários animais de rua que cuidava. Vítimas de “envenenamentos consecutivos”, muitos acabaram por morrer. Hieno foi um dos únicos que sobreviveu. “Era um cão já adulto de matilha, não sociável que se tornou um doce, vive dentro de um apartamento com os tutores e ninguém diria. Era um animal que não se deixava tocar, sequer”, refere.

Para o futuro, querem construir um abrigo

Sofia herdou a paixão pela causa animal a ver mãe a fazer o mesmo. “Acho que ninguém nasce com o sonho de ‘Vou resgatar animais’. Nós esperamos não ter de o fazer'”, diz. “Sempre tivemos animais, a minha mãe já resgatava alguns deles e tentava arranjar donos. Não com associações ou algo formal, mas cresci a ver isso”.

Mais tarde, com 21 anos, começou a trabalhar com grupos e associações animais. Em 2020, conheceu as três fundadoras do Movimento de Intervenção pelas Matilhas. “Acabávamos por tratar animais comuns e não saber”, refere. “Juntei-me a elas em 2020 e desde aí, continuamos a fazer este trabalho”, recorda.

Quando a diretora assumiu a liderança, em 2023, levou o projeto mais além. “Começámos a tentar ter mais apoios e aumentar o grupo de voluntários, a tentar chegar a mais animais. Foi quando começamos a participar de campanhas da Animalife, fizemos protocolos com algumas clínicas para que isso não tivesse a cair de uma ou duas pessoas, porque muitas vezes as dificuldades desses grupos é essa”.

Hoje, o Movimento de Intervenção pelas Matilhas conta com 25 voluntários que alimentam e tratam diariamente dos cães de matilhas, além de acolher e encaminhas os seus bebés para a adoção. O objetivo futuro é criar um refúgio para acolher aqueles que encaminham para a adoção e outros 15 cães velhotes que nunca encontraram um lar definitivo, como Rufus.

Para ajudar a associação, pode enviar donativos monetários através do MbWay (+351 910 003 954) ou IBAN (PT50 0045 3030 4037 6153 5701 9). Os animais para adoção estão disponíveis no site do projeto e nas suas páginas de Instagram e Facebook.

A seguir, carregue na galeria para ver alguns animais já ajudados pelo Movimento.

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