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Faísca foi abandonado em Coimbra mas ninguém o deixou só. Agora é um cão de todos

Um grupo de residentes alimenta e cuida do meigo patudo, que se tornou assim um animal comunitário.
Faísca tem vários tutores.

Há cães que surgem na rua, provavelmente abandonados, e que despertam de imediato a atenção dos amantes de patudos que vivem na zona. Por vezes, ninguém tem possibilidade de o acolher em casa, ou adotar definitivamente, mas isso não significa que não seja cuidado por todos. Quando isso acontece, o amigo de quatro patas ganha o estatuto de animal comunitário e todos velam para que tudo corra bem com ele. É o caso de Faísca.

Faísca é o nome que foi dado a um cão que apareceu há dois meses na vila de Taveiro, no distrito de Coimbra. O pequenote por ali foi ficando e não passou despercebido. Hoje é acarinhado por muitas pessoas que lhe querem bem, que o alimentam e que lhe criaram um abrigo para se sentir mais confortável. E ele sabe que é amado, fazendo uma festa sempre que vê algum dos seus protetores.

Um desses protetores é Daniel Gomes, de 39 anos. Apaixonado por Faísca, tem feito o que pode para que o amigo de quatro patas tenha a melhor vida possível. E ao aperceber-se de que havia mais pessoas que o alimentavam, criou um grupo no Facebook, chamado “Amigos do Faísca – o cão de rua de Taveiro”, para que todos possam ir colocando fotografias e colocando informações importantes, como as datas em que é desparasitado e as necessidades de alimentação, por exemplo.

O grupo conta com 86 membros e promete continuar a crescer, dada a popularidade deste meigo cão – que teve a má sorte de ser abandonado, mas a felicidade de se deparar com bons seres humanos nessa sua jornada que começou a percorrer sozinho.

Os primeiros protetores de Faísca

E como tem sido a sua vida desde que passou a cão de rua e, posteriormente, a animal comunitário? “O Faisca apareceu na vila de Taveiro nos primeiros dias de março deste ano. Era um cão medroso, sempre de rabo entre as pernas e olhar triste”, começa por contar Daniel Gomes à PiT. “Dei com ele junto do cemitério da vila. Ali permanecia, dia e noite, a maior parte do tempo deitado, apático. Era claro que havia sido abandonado e esperava por quem não prometeu voltar.  Ainda coloquei a hipótese de estar perdido e tentei ler o chip. Claro que não tinha”, explica o seu cuidador.

Daniel começou então a levar-lhe água e comida, até que se apercebeu que havia mais alguém a fazê-lo. “Reparei que havia outras taças de comida espalhadas pela zona. Uns dias depois cruzei-me com a senhora Estrela Carvalho. Acho que fomos os primeiros a cuidar do Faísca”.

Na altura, finais de inverno, ainda fazia frio e chuva, conta Daniel Gomes. “Recordo-me de uma noite que choveu imenso. Estava na cama e pensava no Faísca. No dia seguinte levei uma caixa com um saco de plástico com esperança que ele ali se recolhesse nas noites mais frias. Alguns dias depois, a senhora Estrela levou um frigorífico velho que depois foi substituído pelo atual abrigo”, sublinha, feliz com os progressos.

Com o tempo, o patudo foi ganhando mais protetores e amigos. “Naturalmente que muitas outras pessoas foram reparando no Faísca e começaram a deixar-lhe comida e água. Estimo que hoje sejamos pelo menos 10 cuidadores que diariamente lá passam para ver se precisa de água e alimentação”, diz Daniel, salientando que, pela dentição e comportamento, Faísca terá entre dois a três anos de idade.

Tem um abrigo e medalha de identificação

Com amor, carinho e cuidados, as mudanças depressa surgiram. “Rapidamente passou de um cão triste e assustado para meigo, brincalhão e muito dócil. Quando aparece um cuidador começa a saltitar e pedir festas. Já conhece os nossos carros à distância. Mas continua prudente com quem não conhece”, conta Daniel Gomes à PiT.

“Hoje já está totalmente ambientado à zona e sai diariamente para passear até ao centro da vila. Sabe andar na rua e usa os passeios. Ao final da tarde volta sempre ao abrigo e ali dorme”. E já está devidamente identificado, frisa o seu protetor. “Meti-lhe uma coleira e gravei o nome. No verso em vez do número de contato, diz: “cão de rua –Taveiro” para evitar que alguém o pegue na rua, pensando que está perdido.

Faísca também vai dar as suas voltinhas acompanhadas – de carro ou em caminhadas – e adora. “Ao fim de semana, costumo fazer uma caminhada até os campos do Mondego e passo pelo abrigo. Quando lá estiver, vai sempre comigo. Adora ir. É uma felicidade enorme. Fazemos cerca de 6/7 km mas não pára de correr e saltita o caminho todo. Não leva trela, mas porta-se muito bem. Claro que não perde uma oportunidade de correr atrás de uma borboleta, de um passarinho ou até de uma gaivota maior que ele, e adora entrar pelos campos dentro. Nota-se que é feliz e livre”, conta Daniel.

Relativamente a uma possível adoção, só se for por bem. Para ser amado como merece. “Claro que seria bom para o Faísca ter alguém a cuidar dele a tempo inteiro. Será que seria mais feliz do que é hoje? É possível que sim, mas também existe a possibilidade de lhe calhar um dono da ‘raça’ do anterior”, afirma Daniel, evidenciando receios justificáveis.

Nada faltará a Faísca

Mas pode ser que surja a família certa, com possibilidade de acolher e tratar bem. A esperança mantém-se. “Se aparecer uma pessoa responsável, o Faísca merece uma família e todo o amor que lhe possa dar. Até lá, tenho a certeza de que os amigos do Faísca não lhe deixarão faltar nada, pois somos cada vez mais”, garante.

“O objetivo da criação do grupo no Facebook foi precisamente criar uma comunidade que possa compartilhar os cuidados e carinhos a um cão que (ao que tudo indica) foi abandonado e precisa de nós. E tem surtido resultado, porque noto cada vez mais pessoas a ir ao local cuidar do Faísca”, diz Daniel, com alegria visível.

Talvez essa família responsável surja um dia. Pode até ser que um dos seus cuidadores possa adotá-lo. Mas, enquanto isso não acontece, este grupo de cuidadores tudo fará para que nada falte. Percorra a galeria e conheça melhor essas lindas barbichas e alguns dos momentos do seu dia a dia, sempre registados pela lente de Daniel e outros protetores.

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