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Doutores Palhaços: “Não vamos curar ninguém, o nosso poder é fazê-los brincar como antes”

Esta quinta-feira assinala-se o Dia Internacional da Criança com Cancro e estivemos à conversa com a Doutora Marisol, que atua em Coimbra.
É mais uma agradável visita.

São raras as histórias que leva para casa mas, por vezes, acontece. “O pior é quando não conseguimos fazer com que os miúdos entrem no mundo da fantasia. Um dia, estive com uma menina de 15 anos que, sempre que tentávamos brincar, ela insistia em focar-se na doença. O palhaço não faz só rir, é uma janela para despertar as emoções. Também já me aconteceu estar a cantar músicas e uma mãe estar com o seu bebé a chorar, porque foi a primeira vez que se permitiu chorar”.

Estes foram dois casos que a Doutora Palhaço, Inês Moitas, 40 anos, contou à New in Coimbra. Esta quinta-feira, 15 de fevereiro, assinala-se o Dia Internacional da Criança com Cancro, uma data que sublinha a importância de associações como a Operação Nariz Vermelho.

A sua principal área de atuação é centrada nos serviços pediátricos, através de visitas de palhaços profissionais aos quartos dos doentes. E foi nesta aventura que Inês, também conhecida como Doutora Marisol, decidiu embarcar nos últimos sete anos da sua vida.

No total existem 35 doutores palhaços divididos em duas grandes equipas: uma em Lisboa e outra no Porto. Atualmente, Inês faz parte da segunda lista, que inclui o IPO e o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Todos os doutores trabalham em dupla, tanto no terreno como no planeamento de atividades. Desde julho de 2023, que o parceiro de Inês é o Doutor Paco.

Enquanto palhaço, Inês considera que a principal arma é a vulnerabilidade e ensinar a viver no presente. “O palhaço vive no centro da transformação, com tudo o que encontra à sua volta e, até nas alturas mais tristes, há um jogo de inocência nesta relação”. Por isso, na sua opinião, este é o elemento fundamental para unir os miúdos aos profissionais, por mais difícil que a situação esteja.

A Doutora Marisol a preparar-se.

Antes de começar um novo ciclo, a dupla tem de criar um projeto que pretende cumprir na instituição atribuída, durante seis meses a um ano. O plano precisa de ser aprovado pela coordenação artística, em articulação com a respetiva unidade de saúde. A formação principal de todos os palhaços é artística. “É preciso ter noção que não vamos curar ninguém. O nosso poder é outro: conseguir tirá-los temporariamente daquele espaço e brincar como faziam antes”, sublinha.

“Nestas alturas, estamos a trabalhar com o lado saudável dos miúdos, com a capacidade de brincar. No fundo, somos as únicas pessoas a quem elas podem dizer que não, uma vez que não podem negar tratamentos, nem a entrada de médicos. Por isso, este acaba por ser o único ambiente que controlam”, afirma.

Outro detalhe importante a ter em conta é que um palhaço não é uma personagem. “É um persona, como se fosse uma extensão de nós próprios, porque não há grande diferença entre mim e a Marisol. É um trabalho de extrema vulnerabilidade, porque expomos todos os defeitos e fragilidades, já que é nessa altura que o ridículo vem ao de cima”.

A partir do momento em que a dupla entra no quarto, estão todos “em pé de igualdade” e esse sentimento é a alavanca que permite criar uma relação de confiança. No entanto, estar em contacto direto com miúdos doentes e vulneráveis nem sempre é fácil e por isso é que o treino e as formações constantes são essenciais.

“Nós estamos blindados pela técnica de palhaço que desenvolvemos enquanto atores, mesmo estando sempre a lidar com emoções. Mesmo nos casos oncológicos e nos mais difíceis, pensamos que estamos a lidar com a parte saudável do miúdo e tentamos distanciar-nos da realidade”, sublinha. E é essa vertente técnica, que permite transformar a parte emotiva em brincadeira.

Nem todos os dias são fáceis, tanto para os palhaços profissionais como para as famílias dos pacientes. “Já aconteceu os próprios pais estarem constantemente a puxar-nos para a realidade, mas o nosso trabalho é olhar para o lado positivo e evadi-los dali”, salienta.

Paco e Marisol, a dupla de Doutores Palhaços.

Para serem capazes de lidar com todas as emoções, os palhaços têm formações quinzenais para aperfeiçoar a técnica. É neste espaço que partilham experiências, tentam contornar algumas das questões que encontraram no hospital e novas formas de transformar a vulnerabilidade em arte.

“Uma das atividades que mais gostei foi levar um festival de verão para dentro do hospital. A equipa transformou-se numa banda de música, montámos tendas e tentámos recriar esse ambiente com pulseiras à entrada. Nem todos os miúdos terão oportunidade de experienciar algo desse género e por isso é algo que nunca irão esquecer”, diz.

No caso particular de Coimbra, a instituição hospitalar é enorme. “Fazemos desde a medicina, aos exames especiais, cirurgia, até oncologia. Por isso, todos os dias esperamos desafios diferentes”, explica. As visitas realizam-se à terça e quinta e os serviços são distribuídos nesses dois dias. “Este projeto tem estado a correr muito bem, somos sempre bem recebidos pelos miúdos”.

O trabalho da Operação Nariz Vermelho é totalmente diferente dos palhaços de circo. “Não expomos ninguém ao ridículo, porque nós somos essa condição. Outra grande diferença é que não usamos máscara para nos escondermos. No máximo, aplico uma maquilhagem colorida. O único adereço obrigatório é o nariz vermelho”.

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