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“Se Eu o Tivesse Feito”: o livro em que O.J. Simpson revela como a ex-mulher morreu

O antigo atleta morreu esta quarta-feira. Tornou-se conhecido em todo o mundo depois de ser acusado do homicídio da mulher Nicole Brown.
Um dos casos mais mediáticos da história.

A história tem sido marcada por julgamentos impactantes e altamente mediáticos. Em 2022, tivemos Johnny Depp e Amber Heard frente a frente em tribunal devido a acusações de violência doméstica e difamação. Umas décadas antes, os grandes protagonistas de um dos casos mais controversos da história foram o ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson e a ex-mulher Nicole Brown.

Simpson foi acusado de assassinar Nicole e Ronald Goldman, o suposto amante da alemã. Foram encontrados esfaqueados à porta de casa, a 12 de junho de 1994. Nesta quarta-feira, 10 de abril, morreu aos 76 anos o outro interveniente desta história que foi acompanhada de perto por milhões de pessoas. Embora não seja oficial se esta foi a causa da morte, O.J. Simpson tinha sido diagnosticado com cancro da próstata no início do ano e estava a realizar quimioterapia há alguns meses, tal como adianta o site “TMZ”.

O.J. Simpson tornou-se conhecido graças à perícia que mostrava em campo quando era jogador profissional de futebol americano. Passou por equipas como os Buffalo Bills, de 1969 a 1977, e pelos San Francisco 49ers, de 1978 a 1979. Não foi, contudo, a carreira no desporto que o tornou num dos principais tópicos de conversa no mundo inteiro. Foi, sim, a acusação de homicídio de Nicole Brown e Ron Goldman, que foram encontrados mortos na manhã de 13 de junho de 1994, em Los Angeles.

O norte-americano foi considerado oficialmente suspeito pelas autoridades a 17 de junho, depois de a polícia ter encontrado uma luva ensanguentada na sua casa. Porém, em vez de se apresentar na esquadra na hora e dia definidos pelos investigadores, Simpson fugiu num Ford Bronco SUV, de 1993, conduzido pelo amigo Al Cowling. As televisões interromperam as respetivas programações — incluindo a final da NBA, entre os Knicks e os Houston Rockets —, para acompanharem em direto a perseguição policial na autoestrada que foi vista por cerca de 95 milhões de norte-americanos. Simpson acabou por ser capturado no mesmo dia.

O julgamento começou a 9 de novembro de 1994 e durou 11 meses, com o veredicto final a chegar a 3 de outubro de 1995. O.J. Simpson foi representado por uma “equipa de sonho”, que incluía advogados como Johnnie Cochran, Robert Shapiro, F. Lee Bailey e Robert Kardashian, amigo próximo do jogador e o pai das socialites Kim, Khloe e Kourtney — e ex-marido de Kris Jenner.

A luva que o colocou como o principal culpado foi também a prova que o salvou de passar o resto da vida na prisão. Quando os advogados pediram que a colocasse — após já terem reparado que as suas mãos eram grandes demais — toda a gente viu que não lhe servia. Graças sobretudo a isso, acabou por ser ilibado pelos jurados. O caso pode ter terminado naquela altura, mas continuou a ser um tópico aceso de debate nas décadas seguintes. Em 2016, por exemplo, esta história foi contada em detalhe na série “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story”, que em Portugal está disponível na Disney+.

Este julgamento foi especialmente marcante porque serviu de espelho para a forma como os Estados Unidos estavam divididos no que dizia respeito às questões raciais. No final, os comentadores que acompanharam todo o processo pareciam estar todos de acordo: a defesa aproveitou-se da raiva que a comunidade afroamericana tinha contra os polícias para colocar os jurados negros do lado do ator.

Um estudo realizado em Los Angeles também percebeu que maior parte dos afroamericanos acreditava, de facto, na inocência do jogador, enquanto as pessoas caucasianas estavam certas de que a sua ilibação tinha sido incentivada pela raça. Esta discrepância tem vindo a mudar com o passar dos anos. Em 2013, um novo documento revelava que mais de metade das pessoas negras questionadas acreditavam que O.J. tinha sido o culpado pelas mortes.

Apesar da inocência, a carreira de O.J. Simpson nunca mais foi a mesma. Depois de se ter retirado do futebol, participou em mais de 20 filmes e em vários anúncios icónicos da televisão, porém, a dúvida sobre a sua real inocência era forte demais para um estúdio voltar a contratá-lo para um projeto no cinema. 

Frustrado com a sociedade e com a forma como estava a ser tratado em Hollywood, decidiu virar-se para a literatura e, em forma de desprezo pelas vítimas, lançou, em 2007, o livro “If I Did It”, título que em português pode ser traduzido para “Se Eu o Tivesse Feito”. Foi escrito com a ajuda de Dominick Dunne e Pablo Fenjves.

O nome reflete perfeitamente o conteúdo da obra. Além de falar sobre a relação atribulada com a ex-mulher, o ator fala sobre a sua teoria de como Nicole e Ron morreram.

As revelações feitas sobre o atribulado casamento com Nicole

O livro começa por abordar o casamento falhado com Marguerite Whitley, com quem esteve durante 11 anos. Após terem terminado, Simpson conheceu a alemã Nicole — e descreve o relacionamento como “algo tirado de um conto de fadas”, apesar de ela ser “fisicamente violenta” e de ter “muito mau humor”. Garante ainda que era ela que começava todas as brigas que acabaram por levar ao fim da relação.

Na verdade, a violência sempre foi uma constante no matrimónio. Em 1984, o jogador destruiu o carro de Brown com um taco de basebol. Cinco anos depois, foi parar a tribunal após a ter agredido. Declarou-se inocente, mas os jurados não acreditaram. Saiu em liberdade condicional, fez serviço comunitário e pagou uma multa.

O casal divorciou-se em 1992, mas Brown não queria deixar o marido para trás e, durante vários meses, tentou voltar a construir uma relação, tal como garante O.J. no livro. No ano seguinte, deram uma segunda oportunidade, mas não resultou. Entre os vários problemas que atormentavam a vida doméstica, o ator destacou o grupo de amigos da ex-mulher que era constituído principalmente por “prostitutas, traficantes de drogas e pessoas com carácteres desagradáveis”.

Este círculo íntimo fazia todo o sentido aos olhos de O.J., que adianta que Brown era viciada em substâncias ilícitas. Também alega que a alemã tinha “dupla personalidade”. Num minuto estava a ser violenta e, no momento a seguir, estava “aos abraços e aos beijos”.

O mediático assassinato

É apenas no quinto capítulo que Simpson começa finalmente a desvendar o que aconteceu na fatídica noite de 12 de junho de 1994. O autor foi a um recital de dança de Sydney Brooke, a filha. Nicole, que foi à peça com os familiares, estava vestida “de forma inapropriada” e sentaram-se longe um do outro

“Não me queria aproximar daquela mulher. Estava farto das merdas dela. Ela queria ir à ruína e estava tudo bem. Mas outra coisa era levar-me com ela e eu não queria”, escreveu.

Depois da apresentação da filha, O.J foi a uma hamburgueria com Kato Kaelin, um amigo que estava a dormir em casa do ex-jogador profissional de futebol americano. Começou a fazer as malas para viajar para Chicago quando apareceu Charlie, uma personagem fictícia. Tudo o que se segue é “100 por cento hipotético”.

Este interveniente revela que alguns dos seus amigos que estavam em Cabo tinham visto Brown e Faye, um amigo, numa festa recentemente. “Havia muitas drogas e bebida e, aparentemente, o ambiente tornou-se mais sexual”.

Simpson decide que “a Nicole é uma inimiga” e diz a Charlie para ir para o carro com o objetivo de “assustar aquela miúda”. Pegou num chapéu, num par de luvas que viria a ser uma prova contra ele e numa faca que Charlie lhe tirou rapidamente das mãos.

Depois de ter entrado no jardim de Nicole pelo portão estragado, apercebeu-se de que a mulher tinha colocado velas na sala de estar. Assumiu imediatamente que estava a criar um clima romântico para receber alguém.

Naquele momento, já de noite, entrou Ron Goldman, um funcionário de um restaurante onde a família Brown costumava jantar. Levava um par de óculos que tinha sido deixado no estabelecimento pela mãe de Nicole. Isto despertou a raiva de Simpson, que começou a gritar.

Brown, furiosa, saiu de casa e começou também “a berrar” com o ex-marido. Tentou ir atrás dele, mas escorregou e bateu com a cabeça. Neste ambiente, Goldman assumiu uma posição de karaté, Simpson pegou na faca que tinha sido guardada por Charlie, mas desmaiou repentinamente.

Depois de recuperar a consciência, estava coberto de sangue, Nicole e Ron estavam mortos e ele não fazia ideia do que tinha acontecido. Antes de voltar para o carro, despiu-se e deixou as roupas ensanguentadas no porta-bagagens. Durante o caminho, estacionou ao pé da limusina que tinha chamado, deu as roupas e a faca a Charlie e pediu ao amigo para as esconder.

Quando entrou a correr na sua própria casa, tropeçou num aparelho de ar condicionado e assustou Kato. Depois, lavou-se, entrou na limusina e voou para Chicago. No dia seguinte, recebeu um telefonema sobre o assassinato de Nicole. Quando regressou a Los Angeles, concordou em falar com a polícia sem a presença de advogados.

O livro “If I Did It” pode ser adquirido em algumas livrarias portuguesas, mas sem tradução disponível. Custa 13,42€.

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