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“Não sabíamos que havia tantos fãs dos Mamonas Assassinas em Portugal”

A NiC esteve a falar sobre o novo filme da banda com os atores que interpretam Dinho e Bento. Também vão atuar no Rock in Rio.
É uma homenagem à banda.

“Roda, roda e vira, solta a roda e vem. Me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém.”. Em meados dos anos 90, este era um verso que todos os portugueses sabiam cantar de cor graças ao sucesso estrondoso do “Vira-Vira” dos Mamonas Assassinas. Inspirado no Vira minhoto, o tema falava sobre a ida de um casal português para o Brasil, onde passa por vários episódios caricatos.

Tornou-se numa espécie de hino após o desaparecimento do grupo, a 2 de março de 1996, após o avião em que viajavam se ter despenhado na Serra da Cantareira. Sem saberem o que tinha acontecido, dezenas de milhares de portugueses aguardavam ansiosamente pelo concerto marcado para o dia seguinte.

Agora, a história deste símbolo brasileiro está a ser homenageada graças a um novo filme que estreou esta quinta-feira, 20 de junho, nas salas de cinema nacionais. Realizado por Edson Spinell, a narrativa decorre alguns meses antes da formação do grupo e prolonga-se até ao momento do trágico acidente que vitimou os todos os elementos. No fundo, retrata “a luta para conseguirem chegar até onde chegaram”.

“Guarulhos na década de 90. Dinho, Sérgio, Samuel, Julio e Bento são rapazes típicos da época, com pouco dinheiro e muitos sonhos. Nem imaginam que o humor debochado e inteligente, característico deste grupo de amigos, irá mudar as suas vidas para sempre. De algumas tentativas fracassadas ao sucesso absoluto, em pouco tempo, tornam-se o maior fenómeno musical brasileiro da década: os Mamonas Assassinas”, lê-se na sinopse.

O filme conta com Ruy Brissac como Dinho, Beto Hinoto enquanto Bento Hinoto, Robson Lima interpreta Júlio Rasec, Adriano Tunes encarna Samuel Reoli e Rhener Freitas ficou a cargo de interpretar Sérgio Reoli.

Os atores que são, simultaneamente, músicos, vão dar um concerto no Rock in Rio Lisboa a 22 de junho, ou seja, este sábado. Vão subir ao palco do Super Bock Digital Stage para apresentarem alguns dos maiores temas da banda, nomeadamente “Pelados em Santos”, “Vira-Vira”, “Robocop Gay”, “Bois Don’t Cry”, “1406”, “Lá Vem O Alemão” e “Jumento Celestino”.

Leia agora a entrevista da NiC a Ruy e Beto, que nos falaram sobre os desafios do projeto e as expectativas que têm. Leia também o artigo da NiT e conheça a história do grupo.

O filme está prestes a estrear em Portugal e estão quase a subir ao palco de um dos maiores festivais do mundo, o Rock in Rio Lisboa. Fazer um biopic deve ser muito desafiante para atores ou músicos. Ruy, como foi abraçar este projeto?
Foi incrível demais. É sempre um grande desafio porque é um personagem que existiu e que toda a gente conhece muito e permanece muito vivo no coração das pessoas. Interpretá-lo é um desafio muito grande. Sempre procurei trazer a energia dele em vez de imitá-lo. Resgatei a energia do Dinho e trabalhei isso em mim também enquanto Ruy. Misturei as personalidades. Fiquei muito feliz.

Já tinha uma história com a personagem.
Interpretei o Dinho num teatro musical, o que foi um grande desafio. Eram três horas ao vivo no palco a cantar, a dançar e a falar. Foi incrível. O contacto com a família na época foi maravilhoso. O desafio de pegar nesse personagem que eu já estava muito fiel e forte no teatro e trazer para o cinema onde a interpretação é mais realista foi um desafio ainda maior.

De teatro para o cinema teve de se ajustar.
Totalmente. É o mesmo personagem, só que de uma forma diferente. Interpretamos menor e de forma mais realista. Trouxe como era o Dinho em casa, nos bastidores e não só no palco.

É mais difícil interpretar o Dinho enquanto pessoa ou artista?
Em pessoa, porque do artista temos referências porque víamos os vídeos, embora os registos sejam limitados porque eram os anos 90. Só o via nos programas de televisão e como ele era no palco. Trazer para o ecrã como ele era com a família e por detrás das câmaras com as suas dúvidas e questões foi muito desafiante.

Beto, para si deve ser mais desafiante porque tem outra ligação aos Mamonas, sendo sobrinho de Bento Hinoto. Como foi a experiência?
Foi um desafio bem grande, mas também é uma questão de honra porque estou a interpretar alguém da minha família que, infelizmente, não cheguei a conhecer. Sempre gostei muito de representar. Ter a oportunidade de o fazer atualmente, nos cinemas e no palco, é muito incrível.

Cresceu com histórias deste seu familiar?
Ele faz parte da minha família por parte do pai e eu fui criado pela parte da mãe. Para poder buscar e saber um pouco mais sobre a vida dele fora do palco tive de falar muito com o meu pai e com os meus tios. Isso era algo que eu não fazia muito, mais por respeito. Foi uma quebra da parede. Hoje, sabendo das histórias e com o filme, vi muitas coisas em comum com ele, incluindo a paixão pela música.

Também descobriu algo novo sobre si mesmo?
Exato.

A banda teve uma ascensão rápida e um final ainda mais rápido. Este é um aspeto que é delicado, especialmente para os fãs e vocês também tiveram que estar em contacto com as famílias deles. Qual foi a parte mais difícil quando começaram o processo?
Ruy
: O começo de processo é desafiante porque nunca sabemos a reação dos familiares. Foi uma alegria muito grande e uma tristeza muito grande também. Houve dois extremos na história deles. Toda a gente ficou muito impactada. Como lidar com esta situação? No filme puxamos mais pela alegria porque essa era a missão dos Mamonas. Não focámos no acidente que aconteceu. Eu sempre procurei também pela alegria e não me foquei nesse assunto com os familiares.

Ruy, os familiares do Dinho disseram algo sobre a sua interpretação?
Sim. Eles ficaram muito felizes e agradeceram, o que foi incrível demais. A mãe do Dinho, a primeira vez que me viu em personagem ficou muito impactada e olhava para o meu rosto e de um lado para o outro e disse que eu estava muito parecido com o filho dela. Para mim isso foi uma honra. 

Como tem sido o feedback dos fãs?
Beto
: Carregar o legado dos Mamonas traz-nos cada vez mais fãs. Recebemos muitas críticas boas. No filme, boa parte das gravações de espetáculos foram feitas com um público que era fã do grupo e abraçaram muito bem o projeto e tudo o que temos estado a fazer. É gratificante ter esta resposta deles. Entregar a mesma energia hoje em dia é muito difícil.
Ruy: Mamonas vai passando de geração para geração e isso é incrível. Estamos em digressão agora e a maioria do nosso público é composto por adolescentes. Estão a descobrir os Mamonas Assassinas através de nós e estão muito felizes e impactados.

Qual é o tema que mais cantam em uníssono?
Ruy: “Pelados em Santos”. É o clássico. Na verdade, todas as canções são incríveis. Pessoalmente, sou fã do “Robocop Gay” e do “Vira-Vira” que é sobre a história de um português.

Vocês tinham a noção da quantidade de fãs que o grupo tem em Portugal?
Beto: Sabíamos que existiam bastantes, mas não sabíamos que havia tantos fãs dos Mamonas Assassinas em Portugal. Não nasci naquela época. Tudo o que conheço deles é o impacto que tinham no Brasil, mas sei que todo o mundo ouve. Ver este amor de perto é incrível e dá para ver o quão enormes eles foram. 

O vosso espectáculo será a experiência mais próxima a um concerto dos Mamonas Assassinas que o público português vai ter.
Ruy
: Dá um friozinho na barriga. 
Beto: É uma responsabilidade muito grande.
Ruy: O Mamonas está-nos a colocar em lugares onde nunca imaginámos estar. Esta é a primeira vez que estamos em Portugal e vamos trazer o primeiro concerto dos Mamonas num festival como o Rock in Rio. É uma grande responsabilidade em que nem quero pensar. É só viver.

O que vos deixa mais nervosos: a estreia do filme ou o concerto?
Ruy: Os dois. São coisas diferentes, mas que se unem e se tornam uma só. Estamos ansiosos como vão reagir ao filme e se vão gostar. Nunca procurámos imitá-los, mas sim resgatar a energia deles e vamos trazer de tudo para os impactarmos.

O que gostariam que a banda pensasse da vossa homenagem?
Beto
: Espero que não achem que está muito mau.
Ruy: Já faz quase 30 anos que eles se foram e permanecem tão vivos. Isto de ser marcante e histórico é o sonho de qualquer artista. Com certeza eles estariam felizes.

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