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Nevadas: o Melhor Doce Conventual do País é produzido n’O Mosteiro há 30 anos

Odono da pastelaria vencedora recorda o legado da avó e o desejo de levar a especialidade de Lorvão ainda mais longe.

Construído num vale verdejante e famoso pelas suas lendas, o Mosteiro de Lorvão, localizado no concelho de Penacova, remonta à primeira reconquista cristã de Coimbra, datada no século IX. Ao longo dos séculos, destacou-se como um dos mais importantes centros de produção de manuscritos iluminados do País. Porém, a extinção das ordens religiosas, no século XIX, mudou-lhe o rumo.

Considerado um dos Mosteiro mais antigos da Península e classificado como Monumento Nacional em 1910, foi a última morada das Infantas Teresa e Sancha, filhas de D. Sancho I, onde se encontram sepultadas. Os seus túmulos são obras-primas da escultura gótica portuguesa.

As Nevadas de Penacova são um doce conventual com origem no Mosteiro do Lorvão, onde as freiras as preparavam com o nome de “Palermos Cobertos”. Conta a história que, após a extinção das ordens religiosas, uma criada do mosteiro terá levado a receita para Penacova, onde foi adotada e adaptada pela população local, com o nome de Nevadas, devido à cobertura de açúcar que se assemelha à neve.

A Pastelaria O Mosteiro, de Lorvão, estabelecimento localizado mesmo em frente ao Mosteiro, no concelho de Penacova, venceu o Concurso do Melhor Doce Conventual, durante a 27.ª edição da Mostra Internacional de Doces & Licores Conventuais de Alcobaça, com as Nevada, da autoria de Nuno Esperança. A edição teve lugar entre 13 e 16 de novembro e estendeu-se até ao Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel. “A apreciação do júri teve em consideração a qualidade, a apresentação e a raiz conventual das receitas, refletindo a tradição e a autenticidade de cada criação”, afirmou a organização.

A confeitaria produz os bolos desde a inauguração, em 1996. Após quase três décadas a cozer fornadas de Nevadas, Nuno, o proprietário de 49 anos, garante que aumentar a produção nunca foi um desafio. “Fazer 12 ou fazer mil é igual”, afirma, sublinhando que o segredo está na dedicação e na manutenção rigorosa da receita original. Para a pasteleiro, a quantidade nunca altera a essência do produto: as técnicas, os métodos e o padrão de qualidade são exatamente os mesmos, independentemente da procura.

O dono explica que a venda do produto mantém-se estável, sem grandes quebras ao longo do ano (embora a atribuição deste prémio provoque um aumento nas encomendas). Ainda assim, o pasteleiro recusa qualquer adaptação que possa alterar a receita ou comprometer o sabor que tornou o doce tão reconhecido na região e no País.

Custam 1,60€ cada.

A vitória foi conseguida à quarta tentativa, após menções honrosas (2015 e 2017) e da participação, na edição anterior, da Mostra Internacional de Doces & Licores Conventuais de Alcobaça. O momento da vitória foi recebido com entusiasmo na pastelaria, cuja modesta equipa é composta por alguns membros da família, como Ana Cristina Esperança, irmã do proprietário que esteve presente durante a atribuição do prémio. Os restantes, apesar de não terem laços de sangue, fazem já parte dela. Nuno explica que continua a por “as mãos na massa” e, afirma, que o núcleo reduzido ajuda a preservar o cuidado e a autenticidade do produto. A conquista reforçou o orgulho e a união de quem trabalha diariamente para manter viva a tradição e o sabor único das Nevadas.

Contudo, para pasteleiro, o mais importante é a opinião do público, o grande juiz do produto. “Ao produzir estes doces, estou a fazê-los para os clientes. Eu digo que isto é para eles, é devido a eles que consigo ter sucesso. O doce é aprovado pelos meus clientes e, sem eles, eu não teria ganho o prémio”, sublinha.

Quanto à receita das Nevadas, não há margem para desvios. Os ingredientes são conhecidos desde que a receita saiu do convento — ovos, farinha, claras batidas em castelo e três gemas, — o segredo está na forma como são combinados. E, como este é a “alma do negócio·, Nuno não adianta pormenores, revela apenas que “em 30 anos, nada foi alterado”. Para o dono da pastelaria “o segredo está na dedicação que é dada durante a sua confeção”, afirma.

As únicas mudanças feitas ao longo do processo dizem apenas respeito à embalagem, agora mais sustentável e pensada para proteger melhor o doce no momento do transporte. Mas a alteração do produto está completamente fora de plano. Para o pasteleiro, há algo que nunca mudará: as mãos que tocam na massa. Há três décadas que é ele quem garante a consistência do doce, ano após ano. 

Desde o início da preparação até ao momento em que os bolos chegam à vitrine, o processo leva cerca de 3 horas. Depois, é finalizado com uma camada generosa de açúcar que cria aquele contraste irresistível entre o interior fofo e húmido, e a crosta estaladiça.

Este negócio evoca o património local e está profundamente ligado ao Mosteiro de Lorvão e à história familiar do proprietário. O nome da pastelaria surge naturalmente, com o propósito de refletir a proximidade e destacar a origem dos doces que refletem para tradições conventuais ligadas ao mosteiro.

A paixão de Nuno pela pastelaria nasceu durante a infância, num espaço familiar onde a avó materna era a verdadeira força motriz. Maria Silva, uma mulher dedica e exigente, é a inspiração que o acompanha até aos dias de hoje. “Ela fazia tudo com uma integridade e um cuidado que me marcaram profundamente. O produto tinha de sair bem. É daí que vem a minha paixão”, recorda.

Além das premiadas nevadas, que têm o custo de 1,60€ cada unidade, a pastelaria produz outros doces conventuais. A equipa trabalha quatro especialidades que se tornaram assinatura do estabelecimento: os Pastéis de Lorvão, os Palitos de Lorvão e os Queijinhos, além, claro, das Nevadas, produtos tradicionais da região. “São doces que fazem sentido para o mercado e para a nossa identidade”, explica o responsável.

Quando se fala no futuro, Nuno mantém uma postura discreta: divulgar o produto e a sua origem tem sido uma missão constante. O objetivo, com a criação destes produtos, é que mais pessoas se desloquem a Lorvão para provar os doces conventuais. Promete que a nevada continuará a ser aquilo que esteve como objetivo no momento de criação: um produto fiel às suas origens, moldado pela mesma mão e produzido com a mesma dedicação, todos os dias. 

Carregue na galeria e descubra mais alguns eos outros doces produzidos n’O Mosteiro.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. Evaristo Lopes Guimarães 4
    3360-106 Coimbra
  • HORÁRIO
  • Terça a Domingo - 7h30 às 20 horas
PREÇO MÉDIO
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